quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Desabafo de uma mãe cansada

Postado por Mãe do André às 10:22
Sabe, filho, ser jornalista não é fácil. Mamãe já trabalhou algumas vezes até 12 ou 14 horas seguidas sem pausas! Mamãe já acordou de madrugada para entrar no trabalho antes das 4 da manhã para acompanhar operação policial. Também já trabalhei até 4, 5, 7 da manhã para acompanhar, por exemplo, o carnaval (de época ou fora dela). Eu já tive dias de trabalho em que eu não conseguia parar sequer 5 minutos para comer alguma coisa, ou até mesmo beber um copo de água. Eu já tive editor indo me buscar no banheiro, na minha primeira e única pausa do dia, quando fui fazer um xixi que estava sendo segurado há mais de 2 horas. Já recebi pautas fantasiosas com a exigência de voltar com a manchete. Eu já recebi pauta nenhuma com a exigência de voltar com uma manchete. E, mesmo assim, filho, eu nunca me senti TÃO cansada, tão exausta, tão estressada como eu estou agora. Eu nunca me senti tão acabada. E o pior de tudo: eu nunca me senti tão pressionada, fisicamente e, principalmente, mentalmente/psicologicamente, como agora.


Não, filho, a culpa não é sua. Pelo menos, não se analisarmos de maneira mais profunda. O cansaço físico vem de algo que já comentei numa cartinha lá atrás: você está doentinho, filho. HÁ MAIS DE DOIS MESES. Há mais de 2 meses você pula de uma doencinha para outra, não dando intervalo sequer de uma semana entre uma coisa e outra. Nada grave, tirando aquela primeira pneumonia que assustou todo mundo. De lá para cá, você não pegou nada grave. Então às vezes não me sinto nem no direito de reclamar. Mas foi muita coisa. Vou tentar explicar melhor.

Nos últimos dois meses você teve uma gripe, depois outra gripe, uma crise alérgica, uma virose que deixou seu corpo todo pintado (o que deixou eu e seu pai muito preocupados nesta época de dengue e zica). Teve eu pegando sua gripe. Seu pai pegando sua gripe. Você teve gastroenterite. Eu tive gastroenterite. Seu pai teve gastroenterite. E agora tem uma semana que você está com febre e acabamos de descobrir que é infecção de ouvido. Em menos de dois meses você vai precisar do seu segundo antibiótico. A última vez que você foi à creche tem 10 dias. Você vai à creche por 1 semana, falta 1 semana e meia. 

Não é culpa sua ficar doente (parte da pressão psicológica são as pessoas dizendo que é culpa minha, mas eu chego lá). O problema é que se ficar com você em casa já é cansativo, o que é normal, faz parte de cuidar de um bebê, ficar com você doentinho em casa tantos dias seguidos... Nossa, filho!! É muito, muito, muito cansativo!! Como qualquer pessoa, inclusive eu e seu pai, você doentinho quer mais atenção. Quer mais colo. Quer mais dengo. E isso significa muitas vezes passar o dia inteiro com você nos braços, não conseguir tomar uma água direito, não conseguir fazer um xixi sem ter que enfrentar uma revolta de choro, gritos e berros que parecem vir de alguém sendo espancado. Pior, mesmo no colo, eu tenho que enfrentar algumas vezes essas ondas de gritos, choros e berros sem muitas vezes conseguir identificar o porquê. É difícil cuidar de uma pessoinha que não consegue sequer entender o que está acontecendo com ela. Quanto mais explicar onde está o incômodo ou o que dói. Você fica choramingando, caidinho, o que é por si só de cortar o coração. Mas existe também muita exigência física: muito braço, muita coluna, muita disposição. O que, de novo, não quero parecer que estou reclamando demais, acho que faz parte. Eu estou feliz de estar em casa e poder fazer isso por você. Mas quando é assim, uma coisa seguida da outra, sem descanso, sem intervalo, com noites maldormidas por conta de muitas acordadas e choros (por que você está tão congestionado que não consegue nem respirar!), é exaustivo!! Eu estou muito cansada. Eu estou muito cansada.

Mas o pior é o cansaço mental. O pior, filho, é mamãe ter que ouvir que a culpa disso tudo é minha porque eu coloquei você na creche. Por que eu escolhi colocar você na creche quando "eu não precisava". Por que se eu não trabalho eu poderia ter ficado com você esse tempo todo. Ouvir essas pessoas - que por sinal não deixaram de trabalhar quando tiveram seus filhos - me questionando como mãe, me julgando como mãe, dizendo como eu poderia ter outra escolha e eu escolhi "egoisticamente" colocar você na creche, é de cortar o coração. É revoltante! Mas é muito sofrido também. Porque eu tenho essa culpa dentro de mim. Eu tenho essa dúvida dentro de mim, se essa foi a melhor escolha. Mas eu te disse, filho, eu preciso retomar a minha vida. E parte do meu cansaço vem também dessa frustração interna. Eu estava disposta a doar parte desse meu ano para você. Mas eu imaginava que agora, às vésperas de você completar 1 aninho, que as coisas estariam um pouquinho mais encaminhadas e que eu teria tocado já meus projetos pessoais. Que pelo menos o seu blog estivesse sendo atualizado constantemente. Que eu já tivesse começado a fazer um trabalhinho aqui, outro ali. E eu não consigo sequer cuidar da casa. Eu consigo mal mal fazer exercício físico, graças a seu pai.

Sabe, filho, existe uma pressão na sociedade: a de que mãe que é mãe, ou mãe que é boa mãe, precisa se anular completamente em nome dos filhos. Precisa abrir mão de qualquer vontade, de qualquer projeto, de qualquer ambição, de qualquer questão pessoal em nome dos filhos. Para os pais não existe isso. Os pais podem continuar a vida normalmente (graças a Deus seu pai não é desses!), mas a mãe.. .Ah, se mãe quiser ir numa manicure... Se a mãe deixar o filho com uma babá para ir ao cinema... Se a mãe deixar com a babá para ir a um médico (!!!) ela é julgada com olhares tortos e caras feias. Eu não estou dando conta disso, filho. Eu não estou dando conta de, no limite do meu cansaço físico, ainda ter que ficar ouvindo esse monte de abobrinha dentro da nossa família! De pessoas que deveriam nos apoiar! Eu não sei o que fazer. Às vezes eu me pergunto se, talvez, eu não estava querendo demais. Por que talvez eu tenha que desistir de tudo mesmo esse ano. Eu me pergunto se realmente eu fiz a melhor decisão ao colocar você na creche. Mas por mais que as pessoas digam que eu tenho escolha, e por mais que eu defenda que tudo é  escolha, a sensação que eu tenho é que não há escolha saudável para mim agora. Escolher alguma outra opção significaria me violentar, significaria ter uma relação nada saudável com a maternidade. E criar uma conta e uma dívida interna que um dia seria cobrada de você, filho. Que um dia eu iria jogar na sua cara - e isso é uma coisa que eu não quero fazer. Mais do que isso, filho, eu quero criar um machista a menos no mundo. Eu quero ser um bom exemplo para você. E o exemplo que eu quero ser, uma coisa que eu quero exemplificar, é que não existem sacrifícios em nome do outro que deveríamos aceitar por imposição da sociedade. Que a gente precisa escolher aquilo que nos faz feliz, não aquilo que as pessoas esperam de você (desde, claro, que não passe por cima de ninguém). Não devemos escolher aquilo que as pessoas acham que é o melhor para você. E eu quero ser esse exemplo. 

Mas num momento em que eu estou tão cansada, me sentindo um pouco doente de novo, querendo também só colo e sono, lutar contra a correnteza às vezes é muito difícil. Às vezes dá vontade de desistir de dar braçada sem sair do lugar, parar de bater as pernas já tão cansadas e me deixar levar pela correnteza. Só que isso me faz tão mal! É o típico "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Eu não sei o que fazer. Na verdade, eu sei, só não estou muito disposta agora, rs. Eu só não sei como. Sei que tenho que fechar os ouvidos para a pressão e para as palavras idiotas de pessoas que não são eu, que não estão na minha pele, na minha vida, que não têm minhas necessidades e as minhas vontades, e que não conhecem você como eu  conheço. Eu só não sei como fazer isso. Como criar este escudo.

É só um desabafo, filho. Talvez não faça muito sentido tudo o que eu estou falando aqui e o objetivo não é nem fazer sentido, nem ter respostas. É só colocar para fora a minha revolta, a minha exaustão. É só o desabafo de uma mãe muito, muito cansada, mas que sabe que tudo são fases e que essa também vai passar.


Vitória, 25 de maio de 2015 - 11 meses e 26 dias

PS: PASSOU! :)

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