terça-feira, 15 de novembro de 2016

O seu quartinho

Postado por Mãe do André às 11:11

O antes e depois do seu quartinho
Filho, se tem uma coisa que estou devendo contar a você é como o seu quartinho já mudou nesses 10 meses. Já mudou ALGUMAS vezes. E como eu me sinto orgulhosa de mim mesma e do seu pai por termos tomado todas essas decisões. Nós fizemos o seu quarto de uma forma mais tradicional, com berço e cômoda, mas já pensando em algumas dessas mudanças do futuro. Sabíamos que ele seria algo temporário e já compramos decorações e objetos pensando justamente nesse futuro. Mas as metamorfoses do seu quarto foram bem maiores do que poderíamos imaginar.

A primeira foi simples e aconteceu logo que você aprendeu a rolar para fora do tapetinho de atividades e quando passou a ter mais controle das mãozinha a ponto de conseguir agarrar o mosquiteiro: abaixamos o estrado do berço e trocamos a cadeira de amamentação de lugar para abrir um espaço de brincadeiras. Assim, montamos o tapete de EVA que sua tia emprestou e você podia rolar à vontade.

A gente só não imaginava que essa adaptação fosse perder sua utilidade tão cedo. Não demorou muito para que o tapete se tornasse muito pequeno para você e que você desse sinais de que, talvez, estivesse pronto para deixar o berço. Isso mesmo. Percebemos que, muitas vezes, de manhã, você acordava e não chorava nem resmungava chamando a gente. Eu e seu pai ouvíamos sua voz, olhávamos pela babá eletrônica e víamos que você estava acordado e brincando, ora com a almofada de menininho ou como coelhinho de pelúcia que ficam no berço, ora batendo "altos papos" com a estrelinha que ficava pendurada logo acima de você. Para mim, um sinal de que talvez houvesse chegado o momento de, finalmente, transformar o seu quarto segundo a filosofia de Maria Montessori.
Fase 2: tradicional com área de brincar

Deixa eu fazer um parênteses aqui, filho. Quarto estilo montessoriano está na moda e seu sempre tenho uma certa resistência em adotar um comportamento que está na moda. É até um preconceito meu. Por que eu tenho que fazer algo só porque todo mundo está fazendo ou porque sei-lá-quem decidiu que isso agora é bom ou legal ou bonito? A quem interessa essa moda? Sei lá, sempre desconfio ou olho torto para esse tipo de coisa. Mas um aspecto me agradava muito na filosofia montessoriana: fazer um quarto que fosse para você. Parece óbvio, todo pai e mãe fazem o quarto pensando no seu bebê, certo? Na prática, não é bem assim, não. Estamos em um cultura em que o quarto do bebê é, na verdade, montado para os adultos. Quadros, adesivos, prateleiras e outros objetos de decoração em uma altura que a criança não vai conseguir enxergar. Objetos que podem ser um risco para a criança (tomada, abajur, coisas que podem quebrar), móveis que ela não pode ter acesso. Brinquedos em locais em que só os adultos conseguem alcançar. O fato é que a maioria dos bebês não pode ficar sozinho em seu próprio quarto porque não é um lugar seguro para eles. A verdade é que a maioria das coisas que estão no quarto do bebê ele não pode nem sequer tocar e o restante ele depende da boa vontade e da disposição de um adulto para ter acesso. Não parece muito justo, não é mesmo? 

Pensando nisso, eu e seu pai decidimos fazer um quarto que fosse para você e onde você pudesse brincar em segurança (afinal, não temos varanda, quintal nem área de lazer no prédio). Também gosto muito da ideia de Montessori de que o quarto precisa ser visualmente confortável e "clean", isto é, organizado, com poucos brinquedos, poucos móveis e sem muita informação visual (pois, segundo ela, em vez de estimular acabamos
Eu, ainda grávida, no dia em que
terminamos de arrumar seu quartinho
agitando demais a criança). Bem, eu e sei pai gostamos de coisas simples e qualquer filosofia que diz que precisamos de "menos coisas" neste mundo tão consumista é uma filosofia que vamos seguir. Então, fizemos uma decoração simples, que se resumiu a colar alguns adesivos de bichinhos nas paredes brancas. Alguns foram, sim, colados no alto, mas a maioria ficou bem próximo do chão, no local que já estava destinado a ser seu cantinho de brincadeiras. Alguns tios vieram ajudar nessa parte e era engraçado a dificuldade deles de entender por que eu queria colar adesivos atrás da cadeira de amamentação (é que eu já estava pensando em um futuro em que ela não estaria mais lá, rs). Além disso, compramos um hack baixinho para colocar os brinquedos a seu alcance e que, inicialmente, serviu de mesa de apoio para os primeiros meses de amamentação.

Mas algumas coisas dessa "moda Montessori" eu não entendia. Abrir mão de cômoda para suas roupinhas era uma delas. Ficar sem berço nos primeiros meses era outra. Acho muito legal a ideia ter liberdade para se movimentar dentro do seu próprio quarto, que não dependa de um adulto para sair da própria cama, mesmo ouvindo de muita gente o conselho de manter o berço "o máximo de tempo possível", pois quando a criança aprende a andar "acaba o sossego". Ouvi um monte de mãe dizendo que colocar uma criança no colchão no chão é arrumar trabalho extra, pois ela iria ficar saindo toda hora. Mas sabe o que eu acho? Que esse "trabalho" é inevitável. Uma hora, mais dia, menos dia, você vai ter que tirar o seu filho do berço e ensinar a criança a ficar na cama. E onde está a maior chance de sucesso: na criança que dorme na cama desde muito pequena ou naquela que ficou presa no berço até que suas tentativas de fuga se tornassem perigosas demais? Naquela que começa a aprender as regras desde cedo ou na que demorou a provar essa "liberdade"? Cada criança reage de uma forma, André, mas tenho a impressão que o berço só complica as coisas a longo prazo. 

Mas colocar um recém-nascido no chão (seja no bebê conforto, seja num moiséis, seja no colchão) não fazia nenhum sentido para mim. Se tenho que trocar fralda o tempo todo ou amamentar a cada 2 horas, ficar abaixando e levantando assim só ia acabar com nossa coluna (e seu pai já tem problema de coluna). Se você ainda não se movimenta, não engatinha nem se rasteja a ponto de conseguir sair sozinho do colchão, por que não facilitar a vida do papai e da mamãe? Então, fizemos assim, misturamos o quartinho tradicional com o montessoriano. Tínhamos berço (que vira mini-cama, já pensando no futuro), cômoda com trocador e mantivemos o armário onde ficam nossas as toalhas e roupas de cama (não tínhamos outro lugar para isso). E a ideia inicial era desmontar o berço quando você começasse a engatinhar ou se arrastar por aí.

Você conhecendo seu novo quartinho sem berço
Você demorou a engatinhar, filho (cheguei a achar que você andaria direto pois adora ficar em pé), mas como eu disse no início da carta, começou a dar sinais de que não precisava mais do papai e da mamãe assim que acordava. No fim de janeiro, finalmente, desmontamos o berço. Filho, que medo!!! Na hora H minhas convicções foram para o ralo e eu fiquei superinsegura. Será que não era perigoso? Será que daria certo? Antes de desmontar o berço, passamos umas 2 semanas mudando os móveis de lugar para testar a melhor posição, pois ainda não dá para abrir mão da cadeira de amamentação (e ela ocupa bastante espaço). Compramos protetores de tomada, de quinas e travas para as portas do armário e para as gavetas das cômodas (não é o ideal, mas é o possível). Compramos um tapete de EVA maior, que cobre praticamente o quarto todo. E como o quarto ficou grande sem o berço!! Inacreditável. Ficou enorme! O berço não parecia ser tão trambolho assim... E nessas semanas de testes, aproveitei para pesquisar mais sobre o assunto e trocar ideias com mães que já tinham um quarto Montessori. E todas me incentivaram muito a colocar barras na parede (para você se levantar e andar sozinho) e um espelho à sua altura. Diziam que são elementos muito importantes para o seu desenvolvimento. Na gravidez, tinha decidido que não iria fazer nada disso, que era demais. Nenhum bebê precisa ser estimulado a andar, pensava, uma hora ela vai andar e a gente só precisa ter paciência para respeitar o tempo de nossos filhos. Mas bem nesse período você só queria ficar em pé. Era exaustivo. Qualquer adulto perto de você era uma mera alavanca. Você se sentava e levantava incansavelmente, sem parar, me beliscando, pisando e até mordendo para conseguir equilibrar as perninhas ainda sem forças. Por isso, para evitar acidentes, era preciso que eu e seu pai ficássemos se abaixando o tempo todo para segurar você. Quem saber a barra não me dava uma folga? Como sua tia Isa ainda me deu de presente duas barras de cortina que ela tinha (nem dinheiro eu iria gastar!) achei que experimentar não faria mal. E diante da minha insegurança e ansiedade, seu pai lembrou o óbvio: o pior que poderia acontecer é não dar certo e a gente voltar atrás. "Basta tirar a barra e montar o berço de novo", disse ele. Simples, não?

O momento exato em que
descobriu a barra e ficou
em pé sozinho pela 1ª vez

Então, num sábado, seu avô e sua tia Paty vieram nos ajudar nessas mudanças, enquanto sua avó e sua prima brincavam com você. E foi tão incrível, filho! Quando colocamos você sentado perto da barra recém-instalada, nem foi preciso explicar nada, bastou eu colocar uma mãozinha sua em cima dela para que você entendesse tudo. Você arregalou os olhos, abriu um sorrisão, agarrou a barra com as duas mãos e, num piscar de olhos, estava de pé. E você ficou tão empolgado por ter ficado em pé sozinho que dava até gritinhos!!! Coisa mais linda de se ver.

A primeira noite fora do berço também foi muito mais tranquila do que o esperado. Brincamos bastante com você no quartinho novo, deixamos você explorar bastante o ambiente, subir e descer apoiado na barra um zilhão de vezes. Quando chegou a hora de dormir, fizemos o mesmo ritualzinho de sempre (banho, músic ouvindoa, peitinho e cama) e você capotou. Colocar você no chão não foi tão difícil como achei que seria, em alguns aspectos era até mais fácil pois em vez de dobrar as costas, era só ajoelhar no chão macio de EVA. E você dormiu muito bem, como todas as noites, sem mudar nada dos seus hábitos noturnos - continuou acordando uma ou duas vezes para mamar.

O mais bonito foi que, no dia seguinte, acordamos de manhã ouvindo sua vozinha empolgada no quarto. Eu e seu pai temos uma filosofia, filho, que bate muito com o que diz Montessori: se você não está chorando ou resmungando é porque não está precisando de ajuda, não está precisando da gente, está bem. Então deixamos você quieto, fazendo o que quer que você esteja fazendo. Evitamos ao máximo entrar no quarto para não quebrar sua concentração e para não interromper você. Sabemos que se você precisar da gente, ou quiser companhia, vai chamar. E foi assim também nesse dia. Percebemos que você já  estava acordado e, em vez de ir até o quarto, ligamos a babá eletrônica para ver o que estava acontecendo. E você estava NO MEIO DO QUARTO, BRINCANDO!!! Tinha saído do colchão, ido até o hack, pego seus brinquedos e se divertia empolgado com sua independência. Foi tão lindo! E olha que você nem engatinhava direito. Todas as inseguranças foram embora. E eu e seu pai ainda ficamos curtindo preguiça na cama, cochilando, conversando e mexendo no celular por uns QUINZE (QUIN-ZE!) minutos. Só quem é mãe  e pai sabe como são preciosos esses minutinhos e o quanto é maravilhoso não ter que pular da cama e sair em disparada para atender uma criança em prantos.

O quarto já com o EVA
Seu quartinho foi mudando aos poucos. No fim de janeiro, saiu o berço e entrou a barra. Em meados de fevereiro colocamos o tapete de EVA em todo o quarto. Em março,  comprei um  espelho de acrílico (não quebra) junto com outras mães que se uniram para dividir o frete da internet - mas ele só foi instalado no dia 2 de abril. Também tinha minhas dúvidas se isso era mesmo importante, mas algumas amigas psicólogas me incentivaram muito, pois afirmam que é algo maravilhoso para você conhecer seu corpinho. Como você já adorava um espelho, imaginei que, na pior das hipóteses, poderia ser útil no futuro, quando você começar a mudar sua própria roupa e a se pentear sozinho (o espelho tem 1,20 metro de altura). E você, mais uma vez, reagiu com empolgação. Você a-do-ra o espelho. Dá gargalhadas sozinho, interage com o reflexo, é uma coisa linda de ver. É lindo ver sua autonomia dentro daquele quarto, seu desenvolvimento, sua alegria. Como é bom voltar atrás e mudar de ideia, não é?

Seu quartinho ainda não está pronto. Eu e seu pai precisamos nos organizar melhor para começar o revezamento de brinquedos (veja mais aqui e aqui também), já está começando a ter coisas demais. Na verdade, eu acho que seu quarto nunca vai estar realmente pronto. Acho que ele precisa ser constantemente adaptado às suas necessidades e às fases do seu desenvolvimento. Agora que você engatinha pela casa toda com desenvoltura, o lixo de fraldas virou armadilha e precisa ir embora. Acredito que daqui a poucos meses você já vai estar andando e não vai mais precisar da barra. Quem sabe não coloco uma mesinha? Um
Quando o espelho chegou
ganchinho para você pendurar sua mochila quando chegar da creche? Um cantinho para você mesmo tirar o uniforme e trocar roupa sozinho?

Enfim, as possibilidades são muitas e as mudanças constantes. O mais lindo dessa filosofia é a ideia óbvia mas nem sempre fácil, de que eu, como mãe (e seu pai também), observe você com atenção e entenda quais são suas necessidade e seus interesses em cada fase. O quarto é uma simples consequência de um objetivo sublime: respeitar você, filho. Respeitar seu momento, suas necessidades. E ajudar você a aprender a fazer sozinho, incentivar sua autonomia (autonomia, não independência - nenhum bebê pode ser independente). Afinal, no fundo ser mãe é isso, né? Ajudar você a se virar, a se descobrir, a se cuidar, a fazer sozinho. A crescer!! Incentivar você para que eu seja cada vez mais desnecessária.


Vitória, 21 e 25 de abril de 2016 -10 meses e 22-26 dias

ATUALIZAÇÃO: Estou digitando essa carta, filho, agora que você já tem 1 ano e 5 meses. E seu quartinho já mudou mais algumas vezes. Finalmente eu e seu pai começamos a fazer o revezamento de brinquedos, mas confesso que não somos muito disciplinados e que ele acaba acontecendo com uma frequência menor do que deveria (e de uma forma bem desorganizada, rs). Você já anda e quase corre por aí e, surpreendentemente, a barra ainda tem serventia (você a usa para se apoiar e levantar um dos pés para chutar bola, rs). Mesmo assim, acho que está na hora de tirá-la de lá, só não fiz isso ainda porque fico pensando no que fazer com os buracos na parede, rs. Você continua amando o espelho e já aprendeu que cada coisa tem seu lugar. Sempre incentivamos que guarde os brinquedos no lugar certo e quase sempre você colabora, é lindo (destaque bem grande no "quase", rs). A cadeira de amamentação já saiu do seu quarto (sento na sua caminha mesmo quando você quer
O quartinho hoje, agora que você tem 1 ano e 5 meses
mamar) e o número de almofadas em volta de você no colchão, para evitar que você rolasse para o fora dele, está cada vez menor. Mas ultimamente seu quarto tem me incomodado um pouco. Acho que não está mais de acordo com sua idade. Tudo relativo à troca de fraldas foi levado para o banheiro, inclusive o lixo, e isso foi maravilhoso, mas transformou a cômoda onde ficava o trocador em depósito de bagunça e os nichos em buracos vazios - acho que poderia deixar aquilo mais bonitinho (para a foto aí do lado eu dei uma arrumada, rs). Percebi que o EVA muito colorido ficou estimulante demais e atrapalhou suas sonecas da tarde, mas ficaria tão caro substitui-lo agora que eu só penso nas outras coisas que poderia fazer com o dinheiro. Hoje que conheço bem mais Montessori, percebo que gostaria de ter feito algumas coisas de forma diferente, mas aprendi que tenho que ser a mãe possível e não a ideal, então não sofro com isso. Ainda estou doida para colocar uma mesinha no seu quarto, pois agora você já arrisca "desenhar" e acho que pode ser bem útil. Também fico pensando se não faço um cantinho de leitura, já que o número de livros aumentou e eles estão um pouco entulhados na prateleira. Percebi também que está na hora de adaptar outros ambientes da casa para que você possa ser mais autônomo também em outros momentos, apesar de ainda estar um pouco perdida e só ter encontrado soluções que são ou muito caras ou não funcionarão muito bem nosso apartamento apertado. Mesmo com tantas questões, estou achando difícil fazer qualquer coisa neste fim de ano já tão cheio de compromissos. Vamos ver... Pode deixar que eu te conto tudo depois! Beijos, mamãe.

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