quinta-feira, 23 de novembro de 2017

E se tratássemos os adultos como tratamos as crianças?

Postado por Mãe do André às 11:31

E se o patrão colocasse o empregado de
castigo para pensar no erro que cometeu?
Vivemos em um mundo violento, filho. Muito. Muito mesmo. Da nossa janela já presenciei dois assaltos, uma perseguição policial e uma prisão de assaltante (que foi xingado pelos vizinhos nas varandas e quase espancado pela vítima, numa reação tão violenta quanto a própria violência que ele cometeu). Tudo daqui, da minha pacata rua de "bairro nobre". Imagens que me assustam muito e me deixam muito preocupada com seu futuro. Mas, honestamente, quanto mais eu estudo sobre educação e desenvolvimento infantil, mais eu percebo que nada disso se compara com a violência e a indiferença com que tratamos as nossas crianças.


Percebo que, em geral, nós adultos adotamos sempre uma de duas atitudes extremas e contraditórias em relação às crianças: ou subestimamos absurdamente sua capacidade (geralmente quando falamos de habilidades físicas e intelectuais) ou superestimamos demais sua capacidade (geralmente quando estamos no campo das emoções e do raciocínio abstrato).

Fisicamente, a criança não pode nada: tudo é perigoso demais para ele tentar, frágil demais para ela usar ou difícil demais para ela conseguir. Onde ela quer ir é alto demais, o mundo é "pontudo" demais, ela se mexe demais. Tudo quebra, estraga, suja, atrapalha, faz barulho. É melhor para todo mundo, inclusive para a criança, dizem alguns, que ela fique quietinha, muda e imóvel - bendita televisão!! Para que pular? Para que mexer aí? Para de falar um pouquinho - afinal, você não sabe nada deste mundo, é complicado demais para eu explicar, você não vai entender. Não é a toa que estamos tentando sempre dopar nossas criança (veja AQUI e AQUI).

Ao mesmo tempo, queremos que essa mesma criança sem direito ao movimento (não é exagero, VEJA AQUI ou AQUI), sem direito a voz, a opinião, a escolhas ou mesmo sem o direito de estar no mundo (VEJA AQUI ou AQUI), queremos que esta criança desrespeitada e incompreendida tenha um autocontrole absurdo de suas próprias emoções, que saiba lidar com raiva, frustração, cansaço e tédio de um jeito que poucos adultos hoje são capazes de fazer. E qualquer coisa abaixo da perfeição é a prova clara de como essa criança é difícil, birrenta, manipuladora e ardilosa na sua missão de dominar os pais nessa eterna disputa de poder em que transformamos a maternidade/paternidade.

O post original da Karoline está AQUI


Em muitos aspectos tratamos as crianças de forma pior do que tratamos animais! Aliás, hoje temos cada vez mais espaços "pet friendly" e "childfree" (de novo, não é exagero ou força de expressão, olhem a imagem - REAL - logo ali embaixo). As crianças ainda não são nada, não são nem gente, são só um protótipo daquilo que elas devem ser um dia, quando estiverem "prontas", um futuro adulto. Parece um exagero, mas olha como tratamos as crianças, filho: ignoramos sua presença (atire a primeira pedra quem nunca falou da criança, na presença dela, como se ela não estivesse ali), ignoramos sua dor ("isso não é nada", "não precisa chorar por isso" ou, pior, "deixa chorar para aprender"), ignoramos suas vontades ("criança não tem que querer"), ignoramos até suas necessidades ("pais não devem mudar suas vidas com a chegada dos filhos, é a criança que tem que se adaptar à rotina dos pais"). "Olha esse projeto de gente!", "Ela pensa que é gente", "falando assim parece até gente!" - quem nunca usou ou riu de uma frase dessas? Mas como a gente se sentiria se falassem assim da gente?

Olhe só, filho, eu não duvido do amor dos pais que agem assim. Não é culpa deles. Estamos tão inseridos nessa cultura de violência, estamos tão acostumados com essas normas sociais, que nem nos damos conta do absurdo que reproduzimos todos os dias. Vamos no fluxo, sem parar para pensar porque fazemos o que fazemos. Não sou uma pessoa melhor que a média. Apenas o fato de estudar sobre isso me fez refletir e sair um pouco do automático (nem sempre, mas algumas vezes) e me fez parar para pensar que, se tratássemos os adultos da mesma forma com que tratamos as crianças, isso seria uma violência inadmissível. Em alguns casos até um crime! Porque, sem perceber, muitas vezes tratamos as crianças como se elas fossem propriedades dos pais, sujeitos a vontade deles e ao seu humor, sem direito a individualidade - o que, com adultos, seria considerado escravidão! Eu explico.

Hoje em dia, André, muita gente trata as crianças como se elas fossem animaizinhos selvagens e perigosos, que nós, pais e sociedade, temos que domesticar, dominar os instintos e as más tendências, ensinando a moral e as regras de conduta que elas não sabem e precisam aprender. Até se tornarem "civilizadas". Mas, ao mesmo tempo, lembramos o tempo todo que crianças são más e ardilosas, tentando "dominar" os pais e tomar conta de uma casa, numa diária queda de braço para ver quem manda na família. E as crianças, nos diz o mundo, tem técnicas avançadas de manipulação, dignas de Oscar ou de estratégias miliares de guerra! Uma brechinha que você dá, já era! Elas tomam conta e passam a mandar na sua vida. Mas como podem seres tão selvagens e "crus" serem tão inteligentes e conhecedores das regras sociais e da psicologia paterna para manipulações tão elaboradas?

Eu não concordo com nenhum dessas visões, filho. Seria impossível resumir aqui tudo o que eu tenho lido, todas as teorias sobre desenvolvimento infantil que têm mudado minha visão da infância (recomendo muito que você, se quiser ser pai um dia, leia sobre Montessori, comunicação não violenta, disciplina positiva e o poder da vulnerabilidade, começando por esse VÍDEO AQUI). Mas
eu posso fazer uma comparação que talvez seja muito boba e rasa, mas que talvez ajude você a entender, André. Para mim, a criança é como um estrangeiro que você tem a missão de tutelar. Alguém que, no início, não entende sua língua, seu mundo e sua cultura, coisas que você tem a missão de explicar e ensinar, até que ele seja capaz de viver nesse mundo por conta própria. 

O cartaz de mau gosto aí é real, foi  colocado
em um bar de SP, em agosto deste ano
Da mesma forma que acontece como você recebe um intercambista em sua casa, por exemplo, você tem responsabilidades legais e burocráticas sobre esse estrangeiro, deve garantir sua segurança e sobrevivência - e isso significa, sim, colocar alguns limites rígidos e ter um grande grau de controle (ou supervisão) sobre o que ele faz por aqui. Mas, acima de tudo, quem aceita esse tipo de responsabilidade deve entender que sua grande missão é explicar o  seu mundo para alguém que nunca esteve nele, abrindo sua casa e sua vida a um desconhecido que você está disposto a conhecer e a se conectar emocionalmente. Um bom anfitrião é aquele que estuda minimamente a cultura do outro, para entender onde pode haver dificuldade de compreensão ou conflitos. Vai arrumar um jeito de se comunicar para que o outro, que ainda não domina sua língua, possa entender você. Vai entender que regras óbvias para nós podem não ser óbvias para o estrangeiro, que pode questioná-las e estranhá-las. E quem já teve a oportunidade de conviver com um estrangeiro sabe que somente quando temos que explicar nossa cultura ou nossos hábitos é que percebemos como alguns deles (se não muito) não fazem o menor sentido! E, na maioria das vezes, vamos rir desses questionamentos e não nos ofender com eles. Quem é tutor sabe que sua missão é apresentar o seu mundo ao estrangeiro, mas também respeitando a adaptação de fuso horário, paladar e mesmo gostos pessoais: por mais que você ame o Carnaval, não pode exigir que todos os estrangeiros amem essa festa; se o estrangeiro é caseiro, não adianta querer apenas apresenta-los às melhores festas; se é urbano, de que valem as mil viagens à Natureza exuberante do seu país?

Com o tempo, o gringo vai se tornando independente da sua orientação para viver num mundo tão diferente do dele, vai mesclando tudo o que trouxe na bagagem com tudo o que está vivendo aqui, vai aprendendo se comunicar melhor e a entender o que ele gosta ou não gosta desse novo mundo e quais os limites até onde que quer e pode ir (nossos limites e os limites pessoais dele). E pode ficar tão adaptado que ganhará até a cidadania, será parte do nosso mundo.

Mas imagine o choque cultural que pode acontecer se o anfitrião não entender que tudo isso é um processo, que pode levar mais ou menos tempo de acordo com cada pessoa? Se o tutor ficar tão ofendido, a ponto de partir para a agressão, se o estrangeiro, por exemplo, arrotar na mesa durante a refeição (coisas que em algumas culturas é sinal de respeito, de que gostou da comida)? E se o estrangeiro lavar o pé na pia da cozinha antes de comer (é sinal de higiene e respeito em algumas culturas muçulmanas)? Se ele não der descarga quando faz xixi (é norma na Austrália e sinal de consciência ecológica)? Como ele se sentiria quando nós começamos a comer antes de todo mundo na mesa estar servido? Esse costume brasileiro é o ápice da falta de educação na Itália! E se ele ficar ofendido porque uma mulher está conversando com ele e simplesmente não responder? (Eu conheci um egípcio que considerava falta de respeito conversar com mulheres solteiras sem a presença de outro homem como testemunha do seu tratamento). Situações em que um acha que está fazendo o melhor para ser respeitoso e educado e que o outro pode ver exatamente como o contrário. E a lista aqui é infindável!!

A criança quando nasce traz um mundo dentro dela. Um mundo à parte, com suas próprias regras de funcionamento, mas que fazem todo o sentido se a gente parar de pré-julgar e ouvir essa criança. Regras próprias para ela cumprir uma tarefa absurdamente difícil e extremamente importante: formar um adulto. A criança já traz dentro de si uma personalidade, uma inteligência, inúmeras habilidades (algumas que nós adultos não temos, inclusive), muitas vontades, defeitos e virtudes. Seus primeiros anos de vida são apenas a tentativa  insaciável de descobrir e entender esse mundo estrangeiro que nós, pais, temos a missão de apresentar. Os choques culturais são apenas a luta de um serzinho tentando encaixar toda a bagagem que traz e missão que precisa cumprir neste mundo novo, exótico e assustador que ela está tentando entender. A capacidade inata da criança em absorver tudo isso em tão pouco tempo é absurda, espantosa. Ser criança é um trabalho colossal! Ela tem que entender um mundo inteiro, falar uma nova língua, dominar todo um corpo do qual ela não tem controle nenhum quando nasce. Imagine como deve ser ter mãos e pernas que não te obedecem, depender de outra pessoa para se alimentar, se vestir e se limpar. Imagine o que é ser manipulado o dia inteiro como um boneco, como uma peça de carne, sem sequer ter o direito de escolher em que posição quer ficar ou sem conseguir avisar quando está desconfortável. Imagine o que é finalmente conseguir se movimentar sozinha, ainda que com muita dificuldade, e ser obrigado a ficar em jaulinhas, trancado atrás de grades, em poder ir aonde você quer. Imagine não poder dizer quando está com fome, o que quer comer, ser obrigado o tempo todo a ir aonde os outros querem ir, ter que comer o que os outros dizem que você tem que comer, ter que ficar onde dizem que você tem que ficar, sem direito a opinião. Imagine ser obrigado a respeitar uma série de regras que não fazem o menor sentido para você, que ninguém explica para você, sendo que muitas delas impedem que você cumpra sua missão de formar um adulto. Imagina ver um mundo novo e encantador lá fora e ser impedida de explorá-lo! E, acima de tudo, imagine que quando você se estressa com tudo isso, se cansa ou se irrita com todo esse tratamento, você é visto como alguém mimado, birrento e difícil, não raro sendo tratado com gritos, xingamentos, castigos e até tapas!

Ser criança é difícil. E meu papel como mãe, acredito eu, deveria ser facilitar esse processo. Deveria ser o de guia, não o de juiz, muito menos o de capataz. Não me entenda mal, filho, o papel do tutor é também o de garantir que estrangeiro respeite nossas leis e nossa cultura (mesmo que não as entenda completamente). É também o de proteger dos perigos do nosso mundo que gringo não conhece, mesmo que isso signifique impedir que ele vá a um lugar que quer muito ir ou faça algo que quer muito fazer. Seria completamente inadequado se o estrangeiro quisesse viver aqui de acordo apenas com as regras do seu próprio país, aquela que só funcionam no seu mundo. E isso às vezes vai ser chato, frustrante mesmo. Mas é preciso entender que se trata de um processo de adaptação, que deslizes vão acontecer e que, com carinho e paciência, as coisas serão bem mais tranquilas. É preciso entender que não posso ficar ofendido ou bravo porque o estrangeiro desrespeitou uma regra que ele nem sabia que existia ou que tem dificuldade de lembrar - eu preciso explicar e repetir quantas vezes for necessário. Preciso entender que, às vezes, o gringo vai sentir falta de fazer as coisas do jeito que ele gostaria, e tudo bem se sentir assim. Eu preciso entender que não são castigos ou gritos ou tapas ou humilhações que vão fazer esse trabalho. É óbvio, pelo menos quando se trata de um adulto, que eu preciso ter muita paciência, conversa, acolhimento e empatia com esse ser humano que agora mora sob meus cuidados.

Afinal, se eu aceitei o papel de tutora desse pequeno estrangeiro no meu mundo - tutora, não dona ou proprietária - tenho que estar disposta a preparar o quarto de hóspede e recebê-lo. Tenho que estar disposta a aprender minimamente sua cultura e estar disponível para explicar a minha. Se aceitei esse trabalho, é porque quero que você, André, ame e respeite esse mundo tanto quanto eu. Que o admire nas coisas que são admiráveis. Que veja o que está errado e que precisa mudar, melhorando-o no que puder. 

Para mim, filho, se eu aceitei esse trabalho da maternidade, preciso tratar a criança como um convidado de honra no meu mundo. Não como um inimigo invasor que precisa ser detido e contido. O que eu quero, André, é que você se sinta muito bem-vindo ao meu mundo. NOSSO mundo!

Vitória, 17 de maio de 2017 - quase 2 anos.

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